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Querida filha



Um dia tu vais crescer, sair da meninice para te sentires mulher. Acredita, não faz muitos anos e durante grande parte da história da vida das mulheres, nos deixamos tratar como propriedade dos nossos pais, maridos e numa última onda; do mercado. Como todos os processos históricos são lentos, ainda hoje, muitas mulheres em todos os lugares do planeta são tratadas como propriedade dos pais e dos maridos.
Desde o início dos tempos os nossos corpos foram coisificados. Já valemos mais ou menos até em quilos, largura da pelve, formato dos seios, cor dos cabelos, comprimento de pernas. Nossos pais traficavam nossas vidas aos maridos para fazer negócios e assim íamos da propriedade paterna à propriedade do novo dono, que podia fazer o que quisesse conosco, de exigências a castigos e todo o azar de abusos.
Conheces aqueles filmes de escravidão e todos os reflexos que até hoje se vêem na sociedade? Assim foi com as mulheres, é sempre assim quando há luta pelo poder e desejo ignorante de submeter; ódio, competição e rancor. Devagar, crescendo no processo histórico, algumas pessoas começaram a desenvolver os primeiros sintomas de uma sociedade mais inteligentemente sensível, corajosa e amorosa.
Tudo começou com uma primeira menina que ainda bebê olhou nos olhos do pai com firmeza e ele desde sempre soube que não a submeteria, que a força vinda dela era maior do que os padrões históricos perversos de repetição. Pelo amor dos dois, pelo respeito à individualidade daquele ser, ele preferiu abrir mão dos bons negócios para dar à filha a honra de casar-se por amor quando quisesse e com quem quisesse. Essa menina em questão nem mesmo casou, ela preferiu sair “Procurando Firme” bem dona do seu corpo.
Muitas meninas e muitos pais desde então começaram a fazer diferente, a desobedecer as normas vigentes. Perderam terras, viram ruir palácios e impérios, os padrões de comportamento nunca mais pararam de quebrar. Mas, como alertei antes, filha, os processos históricos são lentos e muitos pais, ainda hoje, vêem e tratam as filhas como propriedade. Não é o teu caso, nem das tuas irmãs, que têm um pai que sequer entra no quarto de vocês sem bater desde tenra infância, que além de respeitar, passou lições de coragem, dignidade e especialmente igualdade e solidariedade. Infelizmente é o caso de muitas meninas, que já se formam em casa sentindo-se menores desde esse primeiro e tão importante olhar masculino. Essas meninas, muitas delas, passaram a infância vendo a mãe sofrer maus tratos sem qualquer reação, sofrendo sozinhas pela dor da mãe, quietas no canto. Algumas delas desde sempre vêm reagindo, apesar das imensas e dolorosas barreiras.
O segredo para a reação dessas bravas meninas-mulheres que fazem a diferença com atitudes que fogem aos padrões culturais mais rígidos, sempre foi uma força interna de integridade entre o corpo, a alma e a mente.
Tu vens de um lar sem sombra de machismo e vives em um país ocidental liberal, isso poderia ser considerado uma sorte, mas não é bem assim, não é tão assim como parece. Aqui temos já muitos avanços em relação os direitos de igualdade entre cidadãos e cidadãs e até uma Lei, a Maria da Penha, que nos protege dos abusos machistas típicos.
Acontece que toda a peste social esperneia para morrer e a violência contra a mulher continua a nos espreitar, como uma bactéria que se tornou mais poderosa. Hoje, bem requintada, disfarçada, quase invisível, não faz distinção cultural, está em todos os continentes, entra em toda e qualquer tribo social e econômica. Sempre focada no nosso corpo, ela agora desafia um grande calcanhar de Aquiles que temos: a vaidade.
Minha pequena, não te assustes, não tem nada a ver com tuas pulseiras e enfeites, teus vestidinhos com estampas miúdas de flores do campo. A coisa é mais complexa e de novo tem a ver com poder, submissão e ódio aos que não se deixam pautar pelo lugar-comum e altamente lucrativo da linha de montagem.
Tu vais ouvir em algum momento da tua vida, que não precisas menstruar, que isso é coisa de antigamente, que hoje já temos hormônios artificiais para impedir o funcionamento biológico de nossos corpos. Tu vais ouvir que esses hormônios, fortes o bastante para impedirem a ovulação, são inócuos para tua saúde e seguros para que possas evitar uma gravidez indesejada.
Tu vais ouvir que podes crer plenamente nessas drogas criadas para controlar o corpo feminino e, se confiares, acabarás não sabendo mais nada sobre teu ciclo, serás uma mulher incapaz de sentir se está ovulando ou prestes a menstruar, enquanto teu corpo e teu cérebro travarão uma luta confusa entre desejo, vontade e o sentido real do livre arbítrio. Duvida, questiona e acima de tudo pensa, pensa muito, pensa por ti mesma.
Agora, o que não te dirão é que tomando esses hormônios estarás mais frágil para exigir o uso do preservativo masculino e assim mais propensa a contrair uma doença sexualmente transmissível. Estarás mais propensa a agradar do que sentir prazer e perdida na verdadeira arte de agradar: sentir prazer e alegria na inteireza. Dona real do teu corpo, não cederás aos apelos de penetração a menos que essa seja uma decisão tua, embasada nas umidades do teu corpo e na consciência sobre ele. Mesmo muito jovem, em teus primeiros ensaios, não depositarás no parceiro e muito menos no mercado, o mais vil dos machões, a responsabilidade pelo teu gozo sexual, pessoal e profissional. A capacidade é tua, é nata, vem da coragem da tua alma e de toda a deferência que conseguires fazer para a delicadeza em ti. Nas pessoas todas e não apenas nas mulheres, as delicadezas embasam as maiores coragens e não o contrário, como nos dita o mercado.
Querida, precisarás ser forte, tão forte como a moça do filme “A Flor do Deserto”, porque a caminhada é longa e no percurso rirão de ti, te chamarão de antiquada, retrógrada, tudo porque não é permitido aceitar que sejas dona absoluta do teu corpo, a mais valiosa mercadoria a ser explorada, trancafiada e padronizada, exatamente como sempre foi. Te acusarão de bruxa se afirmares ser capaz de saber o dia exato em que ovulas, te acusarão de louca se resolveres aparar teus filhos em tuas mãos no teu próprio parto. Dirão que teu corpo é repleto de defeitos e necessita infinitos reparos e remédios ainda quando estiveres na flor da idade, no esplendor da vida. Resiste, resiste bravamente, sempre unindo sentimentos, corpo e mente antes de aceitar qualquer intervenção.
Mais tarde eles tentarão te convencer a retardar aparentemente a tua idade, afirmando que a velhice é um lugar feio do qual deves te envergonhar. Para retirar de ti o tempo da reflexão e a melhor exploração de tua memória associativa, usarão de subterfúgios baratos, prometerão devolução de ilusões e velocidades de memória, inexoravelmente perdida, bem perdida, por necessidade, por processo da nova fase.
Sente a cada minuto o teu corpo, ouve-o, atende-o e especialmente na maturidade não te deixes escravizar por um espelho. Os espelhos, filha, só refletem tua imagem, nada sabem sobre teus desejos reais e os abundantes sentimentos de libertação das coisas mundanas que a regulação hormonal natural traz.
Caminha firme, caminha sempre em direção a uma liberdade cada vez maior. Quanto mais velha, mais livre; tão livre que esses discursos de separação entre homens e mulheres, homossexuais e trans deixem de fazer qualquer sentido porque só verás pessoas de qualquer forma, de toda forma. Eles te chamarão de caduca quando estiveres a falar com animais e plantas, com o céu e o mar porque eles não sabem digerir o sentido da diversidade; temem o caos da liberdade e são capazes de exigir até dos anciões que se comportem em pré-pessoalidade.
E bem velha, enfim, sejas.
Cláudia Rodrigues, jornalista, terapeuta reichiana, autora de Bebês de Mamães mais que Perfeitas, 2008. Centauro Editora.

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